Memória reinterpretada

Casa no São Bento

Cidade

Belo Horizonte

Status

Pronto

Área

280m2

Ano

2024

Fotografia

Manuel Sá

Localizada em um dos primeiros terrenos ocupados do bairro São Bento, em Belo Horizonte, esta casa dos anos 1950 carrega as marcas do tempo: já foi residência, comércio e, ao longo das décadas, sofreu diversas reformas. Agora, ganha nova vida pelas mãos de um projeto que reinterpreta sua história para abrigar uma jovem família, conectando passado e presente em uma atmosfera de elegância despretensiosa.

O ponto de partida foi reconhecer o valor da construção original, respeitando sua linguagem arquitetônica ao mesmo tempo em que atualizações sensíveis foram feitas. A intervenção apostou na ampliação dos espaços sociais, criando uma planta fluida com ventilação cruzada e integração com os jardins laterais, elementos fundamentais para valorizar a experiência contemporânea de morar.

Uma das alterações mais significativas foi a inversão da cozinha, que ocupava a ala dos fundos e agora se estende no espaço de dois antigos quartos. A nova posição conecta a cozinha diretamente à área gourmet e à piscina recém-incorporada, desenhando uma grande área de convivência que convida para os encontros familiares.

O antigo espaço de serviço, antes desproporcional e compartimentado, também foi ressignificado: transformado em uma sala de estar e TV, expande a vivência social para os jardins e maximiza a iluminação natural. As intervenções preservaram a lógica construtiva da época, mas atualizaram a relação entre interior e exterior, tão essencial na arquitetura residencial atual.

A madeira, elemento nobre e símbolo da construção tradicional, foi cuidadosamente revalorizada. O piso de taco de madeira, comum nas casas da década de 50, foi reinstalado, enquanto esquadrias e marcenarias em madeira maciça contribuem para uma atmosfera acolhedora e atemporal.

Outro gesto sensível à história da casa foi o reaproveitamento das antigas prateleiras de mármore branco. Durante a demolição, as peças foram retiradas com cuidado e cortadas em pequenos retângulos de 6×12 cm, compondo o piso de marmorite da nova cozinha – uma solução que alia memória afetiva e sustentabilidade, traduzindo em textura o encontro entre o antigo e o novo.

O projeto também apostou em cerâmicas de pequenos formatos e cores vibrantes, reforçando a linguagem de contrastes que permeia toda a intervenção. Já na fachada, o piso em pedra portuguesa desenha composições geométricas que atualizam a tradição, enquanto a inversão do revestimento – trazendo o tijolinho para o primeiro pavimento e pintura para o segundo – confere uma nova leitura para a volumetria da casa. Uma grande viga de concreto aparente, resgatada durante a obra, marca com elegância a entrada da garagem.

Mais do que uma reforma, a Casa no São Bento é um exercício de escuta e respeito pela memória da arquitetura. Atualizada para o estilo de vida contemporâneo, ela revela uma simplicidade sofisticada e uma atmosfera acolhedora – um verdadeiro reflexo da personalidade de seus novos moradores.