Rio Doce, calor e afetos

Casa da Ilha

Cidade

Governador Valadares

Status

Pronto

Área

420m2

Ano

2021

Fotografia

Studio Tertúlia

Projetar uma casa em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce,
é reencontrar um território que carrega calor em todos os sentidos: climático, afetivo e simbólico. A Casa da Ilha nasce desse reencontro. É um projeto especial para o estúdio por duas razões que atravessam toda a sua concepção.

A primeira é a oportunidade de projetar na cidade onde nasci, revisitando-a com o olhar amadurecido por duas décadas de prática.

A segunda é o fato de ter sido encomendado por amigos queridos, vínculos que sobrevivem desde o ensino médio. Projetar para alguém tão próximo exige responsabilidade, escuta e cuidado, e isso pautou cada decisão do processo.

Implantada na Ilha dos Araújos, uma porção urbana peculiar formada pelo meandro do Rio Doce, a casa enfrenta desafios muito específicos. O terreno, de apenas 360 m², demandava espaços sociais amplos e integrados, além de quatro suítes confortáveis. A equação entre programa extenso e área restrita orientou desde o início uma lógica projetual baseada na precisão: eliminar desperdícios de circulação, compactar inteligentemente o volume e criar relações diretas entre interior e exterior.

A ilha sofre anualmente com enchentes, e o lote possui cota máxima registrada de 85 cm de inundação. A solução foi erguer a casa 1,70 m acima do passeio, garantindo segurança mesmo em eventos extremos. Essa decisão estrutural moldou o desenho do acesso e criou um percurso ascendente que organiza garagem intermediária, patamar de chegada e uma percepção gradual da arquitetura.

Valadares é conhecida pelo calor intenso e úmido, agravado pela baixa circulação de ventos na região central. Para responder a esse contexto, a casa prioriza sistemas passivos de sombreamento e ventilação. A ocupação mais ampla do lote gera sombras fundamentais sobre as áreas sociais. Uma estrutura de concreto avança 1,20 m no segundo pavimento, formando beirais nas fachadas frontal e posterior. Brises de alumínio filtram a luz direta e reduzem a carga térmica nas superfícies verticais, diminuindo a transmitância térmica para o interior.

Esses dispositivos atuam não apenas como proteção, mas também como instrumentos de registrar o tempo. As sombras projetadas mudam conforme as estações, criando um calendário solar particular sobre pisos e paredes. A arquitetura se revela em movimento e traduz a passagem das horas e dos meses.

Um pedido marcante dos clientes orientou uma solução técnica ousada: não queriam um pilar na quina da sala. O pilar foi deslocado para
a divisa, liberando o canto e permitindo que o segundo pavimento avance sobre o jardim lateral como um volume que parece flutuar.
Um pergolado metálico acompanha esse balanço e, quando os painéis de vidro escamoteáveis são recolhidos para dentro das paredes, interior e exterior se dissolvem em um único espaço contínuo.


No ponto exato onde um pilar deveria existir, instalamos o balanço Manga, desenhado por nós para a Qubo Design, um objeto-lugar
que sintetiza a intenção do projeto. Ele simboliza leveza, afeto e a celebração consciente das escolhas arquitetônicas.

O térreo abriga toda a área social: hall, estar, jantar, cozinha, despensa, brinquedoteca adaptada a partir de uma das suítes, área de serviço, espaço gourmet e piscina. Um jardim de inverno acompanha a lateral da casa, funcionando como eixo de ventilação e respiro paisagístico para os ambientes. Do outro lado, um corredor de serviço garante acesso técnico e organização da rotina da casa.

No pavimento superior, a intimidade se organiza com racionalidade. A sala de TV se articula com duas suítes com closet para as filhas e com a suíte master. As circulações são aproveitadas como espaços produtivos, funcionando como rouparia, área de estudo e pequeno local de trabalho para o cliente, patologista. A fachada posterior se abre para o Pico da Ibituruna, ícone da paisagem valadarense, incorporando esse horizonte à experiência doméstica.

A Casa da Ilha é mais do que um exercício de síntese entre condicionantes ambientais, precisão espacial e expressão material.
É, acima de tudo, uma casa pensada para a vida cotidiana. É o lugar das crianças que correm, dos amigos que se reúnem, dos encontros ao redor da mesa, do descanso silencioso diante da paisagem. É uma casa enraizada em seu território, consciente de seus limites, ajustada às intempéries e aberta ao acolhimento. Uma casa que traduz memória, afeto e pertencimento.