Criando preexistência

Casa Raízes

Cidade

Brumadinho, MG.

Status

Em construção

Área

130m2

Ano

2022

“Raízes” foi o nome dado pelo cliente já no início do processo de criação — e não por acaso. Construir uma casa naquele trecho da zona rural de Brumadinho, nos arredores de Belo Horizonte, significava, para ele, um retorno afetivo às origens: o terreno, localizado no distrito de Piedade do Paraopeba, integra a antiga fazenda da família, lugar onde passou a infância e formou as primeiras memórias espaciais.

A arquitetura, nesse contexto, é convocada a operar em uma dupla temporalidade. Ao mesmo tempo que projeta o futuro — como é próprio de sua natureza —, deve dialogar com o passado e, sobretudo, com as preexistências físicas e simbólicas do lugar. Assim nasceu a Casa Raízes: um exercício de síntese entre permanência e renovação, entre memória e invenção.

O ponto de partida projetual foi a imagem de um antigo moinho, apresentada pelo cliente com a frase: “Não sei o que fazer com isso, mas essa imagem me toca.” Tratava-se de uma construção rural simples, com cobertura em duas águas, elevada do solo sobre duas paredes paralelas de pedra.

A partir dessa referência, adotamos um procedimento de depuração formal e material. Reorganizamos os elementos do moinho em uma nova linguagem, contemporânea e sintética, respeitando seu caráter ancestral. As paredes de pedra deixaram de ser apenas suporte estrutural e se tornaram fechamento e matéria do primeiro pavimento. Sua espessura generosa foi aproveitada para abrigar mobiliário embutido e soluções arquitetônicas como lareiras, bancadas, bancos, jardineiras e aberturas cuidadosamente recortadas para emoldurar a paisagem.

O segundo pavimento, construído em alvenaria de vedação e pintura caiada branca, evoca a singeleza das casas tradicionais do interior mineiro, com poucas aberturas — apenas uma janela e uma porta em madeira pintadas em verde, como um gesto de retenção e controle da luz e da privacidade. A cobertura, por sua vez, rompe com a referência original: substituímos o telhado colonial de duas águas por um único plano inclinado em telha sanduíche, solução técnica que otimiza o conforto térmico, agiliza a construção e reduz custos de manutenção. O afastamento entre cobertura e alvenaria também permite a entrada de luz natural de forma indireta e controlada, reforçando o caráter atmosférico do espaço interno.

Mais do que uma resposta formal ao contexto rural, a casa foi concebida como um exercício de síntese: um projeto que busca a sofisticação por meio da simplicidade, onde cada material e cada gesto arquitetônico tem papel preciso e contido. Essa abordagem está em consonância com os valores do nosso estúdio, que acredita que a clareza, a atemporalidade e o respeito à memória dos lugares podem se transformar em beleza duradoura.