Paisagem como memória líquida

Casa no Sumidouro

Cidade

Pedro Leopoldo

Status

Em construção

Área

414m2

Ano

2025

Implantado em um generoso terreno próximo ao centro da vila homônima, o projeto nasce do desejo dos clientes de construir uma morada para a vida pós-aposentadoria, em uma paisagem profundamente carregada de história e afetos. A Quinta do Sumidouro, no município de Pedro Leopoldo, é uma vila serena, cuja origem remonta às expedições bandeirantes de Fernão Dias Paes Leme, por volta de 1674. A presença vívida da memória local foi o ponto de partida para o desenvolvimento do projeto.

Antes de traçar linhas ou imaginar volumes, percorremos o vilarejo. Visitamos a casa de Fernão Dias, a Capela do Rosário, o Parque do Sumidouro e seu mirante. Observamos os casarios impregnados de pedra Lagoa Santa, os telhados coloniais, as esquadrias de madeira,
e reconhecemos, nessas referências, a base material e simbólica de uma arquitetura possível e enraizada.

Essas visitas orientaram o partido arquitetônico adotado. Inspirados na tipologia dos currais e das casas coloniais da região, reinterpretamos a estrutura tradicional de telhado em duas águas como um sistema de pavilhão modular, uma solução recorrente na arquitetura moderna brasileira, especialmente adequada ao clima tropical.

O pavilhão, com seus beirais generosos e varandas contínuas, proporciona sombreamento, ventilação cruzada e uma transição fluida entre interior e exterior. Mais do que uma escolha estética, é uma solução racionalizada, de fácil execução e manutenção. Uma resposta coerente ao contexto físico, cultural e econômico do projeto.

Dentro do pavilhão, fez-se uma primeira setorização esquemática: ao posicionar em círculos os espaços íntimos (suíte principal) e os de serviço (cozinha, lavanderia e espaço gourmet), revelou-se uma sinuosidade vista nas grutas da região. O espaço social, ou seja, a sala de estar e jantar, nasce então como o vazio entre os blocos, como se o tempo tivesse esculpido essa ausência entre as pedras.

Os blocos em pedra Lagoa Santa que definem a setorização se projetam além da cobertura do pavilhão, criando pátios internos descobertos, ora jardins privativos ligados aos quartos, ora áreas de serviço mais resguardadas. São espaços de transição e respiro, que garantem privacidade sem romper a permeabilidade do conjunto. A casa, aberta ao entorno e aos hóspedes, encontra nos vazios uma solução discreta e eficiente para o abrigo íntimo.

Voltada para o sudeste, a casa se abre para as copas das árvores da parte mais baixa do terreno. A piscina, concebida como uma piscina natural, foi implantada entre o pavilhão principal e os quartos de hóspedes, configurando um espaço comum de convivência e contemplação. Seu leve deslocamento para o oeste permite maior insolação ao longo do dia.

A vegetação aquática da piscina natural cria um vínculo com a paisagem do Sumidouro, ampliando a presença da natureza e aprofundando o vínculo do projeto com a memória afetiva local.

Valorizamos materiais locais e mão de obra da região, reforçando os vínculos com o lugar. Em vez de mimetizar o passado, a casa estabelece um diálogo sutil entre tradição e contemporaneidade, no qual cada decisão projetual carrega uma camada de tempo, de saber e de afeto.