Entre o tempo e a terra

Casa no Santa Tereza

Cidade

Belo Horizonte

Status

Em construção

Área

156m2

Ano

2024

Santa Tereza é mais que um bairro: é uma atmosfera. Suas ruas arborizadas e casario eclético formam um dos conjuntos urbanos mais característicos de Belo Horizonte, onde a arquitetura residencial de meados do século XX encontra o espírito boêmio de um dos movimentos musicais mais importantes do Brasil — o Clube da Esquina. Foi nesse território afetivo, cultural e arquitetônico que se desenvolveu o projeto de reforma de uma residência na Rua Paraisópolis, a poucos passos da esquina célebre frequentada por Milton Nascimento, Lô Borges, Toninho Horta e outros ícones da música brasileira.

Embora a casa original não fosse tombada, sua linguagem era parte do tecido histórico do bairro. O projeto partiu, então, do desejo de restaurar e atualizar a edificação, respeitando sua identidade e relação com o entorno. A investigação envolveu pesquisa documental e iconográfica, identificando características da construção original que haviam se perdido ao longo do tempo. Elementos como os arcos do alpendre, os adornos de vergas e contravergas, e os desenhos das esquadrias e gradis foram cuidadosamente redesenhados, numa operação de resgate que foi além da estética: tratou-se de reconstruir a memória material e simbólica da casa.

Na parte posterior do lote, uma nova edificação de dois pavimentos foi implantada com a missão de introduzir uma linguagem contemporânea, sem romper com a poética do conjunto. No térreo, cozinha e área de lazer integram-se aos espaços sociais; no pavimento superior, uma suíte master generosa amplia a experiência da paisagem, com grandes aberturas voltadas para a serra.

A arquitetura da nova ala propõe uma leitura simbólica e técnica atualizada. A cobertura abobadada, em concreto e tijolos aparentes, articula referências projetuais sofisticadas, evocando autores como Louis Kahn, Eolo Maia e Gui Paoliello. Essa escolha formal responde tanto à intenção estética de marcar uma transição de tempo delicada, quase romântica, quanto à funcionalidade exigida pela cobertura verde e pelo desempenho térmico da construção. A integração entre estrutura e paisagem é, aqui, também um gesto de sustentabilidade.

O resultado é uma casa que restaura a relação com a rua, recompõe sua dignidade original e cria novas camadas de intimidade e conforto. Um projeto que valoriza o quintal, a vista e os silêncios, ao mesmo tempo em que dialoga com a história, com a cidade e com o futuro.